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História · Capítulo IVséc. XIII – XX

O rio que subiu, Santa Clara-a-Velha

poentea igreja em corte, medida · a azul, a cota a que corre hoje o rionascente

Em 1677 as clarissas deixaram Santa Clara-a-Velha: o Mondego tinha-a ido enterrando em areia e água durante mais de três séculos. Hoje o rio corre mais alto do que o chão da igreja.

Como ler os selos
  • Medidolido hoje por instrumento
  • Escavadoencontrado em escavação e publicado
  • Documentadoescrito numa fonte antiga ou num registo
  • Hipóteseproposto pelos investigadores, por provar
  • Esquemadesenho para explicar, não à escala do achado
O CORTE

O chão que subiu

Dos dois mosteiros ao rio, numa linha. O terreno, a cova e o rio medidos hoje; os pisos da igreja às cotas que a escavação encontrou.

  1. 01

    Um mosteiro no fundo de uma cova

    Corte-se a margem esquerda numa linha: do alto de Santa Clara-a-Nova, pela encosta abaixo, ao longo da igreja de Santa Clara-a-Velha, e a direito até ao outro lado do Mondego.

    A igreja velha está numa cova. O chão onde hoje se anda no mosteiro fica a 13,4 m de altitude; a rua à volta, a 19,0 m. O rio passa a 17,8 m — acima do chão do mosteiro.

    Medido[3]
  2. 02

    Um chão à beira do rio

    O mosteiro começou em 1286, fundado por D. Mor Dias. A rainha D. Isabel, mulher de D. Dinis, refundou-o e acabou a igreja, sagrada a 8 de Julho de 1330. Quis ser sepultada nela.

    Assentou num terraço de cascalho do próprio rio. O lajeado da nave ficou à volta dos 13 metros de altitude.

    Documentado[1]Escavado[1]
  3. 03

    O rio começa a entrar

    As cheias entraram no Inverno de 1331, no ano a seguir à sagração. Para o túmulo da rainha ficar a salvo, construiu-se uma capela a meia altura da igreja.

    Desde o séc. XII que as encostas do Mondego estavam a ser desmatadas para cultivo, e a terra descia ao rio. O leito subia, e as cheias subiam com ele. No séc. XV qualquer cheia já chegava ao mosteiro. No séc. XVI alteou-se o chão, pelo menos no coro, para os 13,7 m.

    Documentado[1]Escavado[1]
  4. 04

    Uma igreja por cima da igreja

    No tempo do bispo D. Afonso de Castelo Branco lançou-se, a toda a extensão da igreja e do coro, um piso novo sobre abóbadas de tijolo, a meia altura, junto aos peitoris das janelas. Por baixo ficou o andar antigo, à mercê das cheias.

    Um cronista da ordem escreveu que se levantou “outra Igreja, & outro coro de novo que se pudessem salvar das inundações do rio”.

    Documentado[1]Esquema
  5. 05

    Subir o monte

    Não chegou. A 29 de Outubro de 1677, com o mosteiro novo ainda por acabar, as clarissas mudaram-se para Santa Clara-a-Nova, no alto do Monte da Esperança. Dois dias antes tinha subido o corpo da rainha.

    O chão de Santa Clara-a-Nova está a 65 m de altitude: 53 m acima do lajeado da igreja velha, a 315 m dela.

    Documentado[1]Medido[3]
  6. 06

    Um pântano, depois um curral

    Em 1770 as ruínas foram aforadas. O contrato obrigava a entulhar o andar de baixo da igreja e os charcos onde tinham estado o claustro e as casas — “o pântano insalubre e infecto que ocupava o logar do mosteiro”.

    A igreja escapou. Na segunda metade do séc. XIX e no princípio do XX foi celeiro, armazém de alfaias e curral.

    Documentado[1]Esquema
  7. 07

    O rio faz-se lago

    Em 1959 um estudo do LNEC notava que o chão de baixo da igreja estava abaixo do nível do Mondego na estiagem. O rio já não precisava de cheias para entrar.

    Com o açude-ponte e as obras de regularização do Baixo Mondego subiu o nível freático, e o mosteiro passou a estar sempre inundado. O açude, de 1981, segurou o rio num espelho de água permanente.

    Documentado[1]Documentado[2]
  8. 08

    Uma parede contra o rio

    Para se poder escavar, o mosteiro foi fechado numa cortina de betão e de bentonite-cimento, com paredes de 16 a 24,8 m de fundo. Desde 2004 visita-se a seco.

    O espelho do rio fica 4,4 m acima do chão onde se anda. No capítulo I, os romanos construíram o chão para a praça. Aqui ninguém o construiu: foi o rio que o trouxe.

    Documentado[1]Medido[3]Esquema
OS VIZINHOS

Santa Clara não foi a única

Entre 1543 e 1677, as casas religiosas da beira do Mondego saíram uma a uma, para longe e para cima.

15001550160016501700bula de 15061543156116091677
  1. 1543

    S. Domingos

    Ao fundo da Rua Direita. As cheias já lá chegavam no séc. XIV; em 1543 começou o convento novo, na Rua da Sofia.

    Documentado[1]
  2. 1561

    Santa Ana

    De cónegas regrantes, conhecido por Celas da Ponte. Em 1554 um poeta via-o “a sumir-se, envolto de areia por todos os lados”. Abandonado em 1561.

    Documentado[1]
  3. 1609

    S. Francisco da Ponte

    Junto à ponte. Em 1602 os frades começaram um convento mais alto e mais longe do rio; mudaram-se sete anos depois.

    Documentado[1]
  4. 1677

    Santa Clara

    A última. Subiu ao Monte da Esperança.

    Documentado[1]

A ponte que subiu

A ponte de Santa Clara foi subindo com o rio. Em 1513, D. Manuel mandou fazer uma nova sobre os pegões da velha, com o tabuleiro cerca de 5 m mais alto. Desde a ponte de D. Afonso Henriques, de 1132, os tabuleiros subiram pelo menos 6 m.

Documentado[2]

Uma bula para mudar de casa

Em 1506, uma bula papal autorizou D. Manuel a mudar para sítios mais convenientes os conventos da beira do Mondego: S. Francisco e S. Domingos já não se podiam habitar quando havia cheia.

Documentado[1]

O mosteiro visita-se.Fica na Rua das Parreiras, na margem esquerda, perto da ponte de Santa Clara.

Horários e bilhetes na bilheteira do Património Cultural →
Referências
  1. F. Pato de Macedo (2006), Santa Clara-a-Velha de Coimbra: singular mosteiro mendicante, tese de doutoramento em História da Arte, Universidade de Coimbra. estudogeral.uc.pt/handle/10316/646
  2. J. P. Cardielos (coord.), R. Lobo, P. Peixoto, E. Mota, N. Duxbury e P. Caiado (2016), “Mondego: o surdo murmúrio do rio”, em P. Peixoto e J. P. Cardielos (orgs.), A água como património, Imprensa da Universidade de Coimbra, pp. 95–112. doi.org/10.14195/978-989-26-1025-2_6
  3. Direção-Geral do Território, modelos digitais de terreno e de superfície LiDAR 2 m (2024). cdd.dgterritorio.gov.pt
  4. Contornos dos mosteiros, dos edifícios e da água: OpenStreetMap, contribuidores (ODbL). www.openstreetmap.org/copyright