Temperatura—°C◆Qualidade do Ar—EAQI◆Vento—km/h◆Mondego—m³/s◆
História · Capítulo V1941 – 1975

A Alta demolida, a Cidade Universitária

a cor de telha, 1934a Rua Larga e o Largo da Feira, antes e depois · a cheio, o que foi demolidoa traço, hoje

Entre 1943 e 1975, o Estado Novo arrasou o alto da Alta de Coimbra para lá pôr a Cidade Universitária: mais de duzentos prédios, quatro colégios, uma igreja e o que restava do castelo. Duas a três mil pessoas tiveram de sair.

Como ler os selos
  • Medidolido hoje por instrumento
  • Escavadoencontrado em escavação e publicado
  • Documentadoescrito numa fonte antiga ou num registo
  • Hipóteseproposto pelos investigadores, por provar
  • Esquemadesenho para explicar, não à escala do achado
A PLANTA

O que havia, o que lá está

O alto da colina em três plantas antigas — 1873, 1934 e 1960 — postas sobre a cidade de hoje. As casas demolidas, uma a uma.

  1. 01

    A Alta que os Goullard desenharam

    Em 1873 e 1874, dois irmãos franceses, Francisque e César Goullard, levantam para a Câmara a planta da cidade. A folha que apanha o alto da colina mostra, a carmim, o que lá estava construído: os colégios, a Sé Nova, o hospital — e, entre eles, quarteirões de casas.

    A rua do meio chama-se na planta Rua do Infante D. Augusto. Toda a gente lhe chamava Rua Larga.

    Documentado[3]
  2. 02

    Casa a casa, vista do ar

    No Verão de 1932 um avião fotografa Coimbra para a primeira planta da cidade feita a partir do ar. Sai em 1934, à escala 1:1000, com cada telhado desenhado. É o último levantamento da Alta inteira.

    Sessenta anos depois dos Goullard, a malha é a mesma. A Rua Larga tem 10,1 m entre fachadas.

    Documentado[2]Medido[2]
  3. 03

    O plano

    Em Outubro de 1941 o Governo cria a comissão que há-de fazer a Cidade Universitária. O arquitecto é Cottinelli Telmo; o ministro, Duarte Pacheco. Em Fevereiro de 1942 chegam as primeiras cartas aos proprietários; a 7 de Setembro o plano é aprovado em Conselho de Ministros.

    A cor de telha, um a um, os prédios particulares que vieram a ser expropriados e demolidos; mais escuros, os quatro colégios e a igreja. Em Agosto de 1942 previa-se deitar abaixo 255 prédios.

    Documentado[1]
  4. 04

    O camartelo

    A Igreja de S. Pedro começa a ir abaixo em Junho de 1943. O Colégio dos Lóios arde numa noite de Novembro e é demolido no ano seguinte. Em Janeiro de 1947, o que restava da torre do castelo é rebentado com explosivos, diante de uma multidão.

    Em Dezembro de 1949 acabam as demolições na Rua Larga. Os últimos a cair são os colégios de S. Boaventura e de S. Paulo Eremita — este, até ao Verão, sede da Associação Académica.

    Documentado[1]
  5. 05

    A meio da obra

    No chão limpo sobem os primeiros blocos: o Arquivo em 1948, Letras em 1951, Medicina e a Biblioteca Geral em 1956. Desde 1949, a Escadaria Monumental desce para nascente.

    Em 1957 um avião volta a fotografar a cidade. O sítio da Faculdade de Ciências é um terreiro. Ao lado, entre a Rua dos Militares e o Arco da Traição, ainda há casas de pé: são as da última fase de expropriações. O último arco do aqueduto é cortado em Novembro de 1958; o Colégio dos Militares cai por volta de 1961.

    Documentado[4]Documentado[1]
  6. 06

    A cidade de pedra

    A Matemática abre em 1969; a Física e a Química, em 1975, trinta e dois anos depois de a primeira casa cair.

    A nova Rua Larga é uma recta apontada à Porta Férrea, com 36 m de fachada a fachada. A de 1934 tinha 10,1.

    Documentado[1]Medido[7]
  7. 07

    O que lá está

    Postas as casas de 1942 sobre a cidade de hoje, 45% do chão que ocupavam tem um edifício novo por cima. O resto, 55%, é praça, rua e pátio.

    Mais de metade do que se demoliu não deu lugar a edifício nenhum: deu largura às ruas e às praças.

    Medido[7]Documentado[1]
O CORTE

O chão que desceu

Da Porta Férrea ao fundo da Escadaria Monumental, pelo meio da rua. O chão de hoje, medido; por cima dele, as cotas de antes das obras.

−2,3 mPraça da Porta Férrea101,8 m antes · 99,5 m hoje−4,0 mRuas do Borralho e dos Lóios104,1 m antes · 100,1 m hoje−4,7 mLargo do Castelo105,4 m antes · 100,7 m hojeArquivo · Biblioteca GeralLetrasMedicinaMatemáticaFísica e QuímicaPorta FérreaLargo D. Dinis20,9 mEscadaria Monumentalonde este eixo era telhado em 193450 m
Corte · da Porta Férrea para nascente, pelo meio da rua · blocos em alçado, ao fundo · a tracejado, entre as cotas de antes · altura exagerada 2×Medido[6]Documentado[1]

4,7 mÉ quanto o chão desceu no antigo Largo do Castelo. Para pôr a rua nova a direito e de nível, o alto da colina foi cortado. Em Agosto de 1949, o Diário de Coimbra falava de «uns três metros» de rebaixamento e, dois dias depois, de cerca de quatro junto ao Largo do Castelo; na Praça da Porta Férrea, de pouco mais de dois.Documentado[1]Medido[6]

19 – 27 mÉ a altura a que ficam os telhados dos blocos novos acima da Rua Larga, de Letras a Matemática. A torre da Universidade, medida da mesma maneira, tem 34 m. Das casas demolidas sabe-se o número de pisos, não a altura.Medido[6]

44%Do eixo de hoje, entre a Porta Férrea e o cimo da escadaria, era telhado em 1934. A Rua Larga antiga fazia uma curva; a nova passa a direito, por dentro dos quarteirões. Depois desce 125 degraus, em 5 lanços.Medido[2]Documentado[1]

AS CONTAS

Quantos eram

Três números para os prédios, um para as pessoas. Nenhum é uma contagem final, e não dizem todos o mesmo.

  • 255prédios a demolir

    O que se previa em Agosto de 1942, antes de a primeira casa cair.

    Documentado[1]
  • 202prédios com registo

    Os que os autos de expropriação descrevem. Faltam os três blocos da última fase, de que não há dados.

    Documentado[1]
  • ≈ 300casas, disse o reitor

    As expropriações «atingem cerca de trezentas casas da Alta», disse Maximino Correia aos jornais em Março de 1948.

    Documentado[1]
2000 a 3000pessoas

Ninguém as contou. O número é do reitor Maximino Correia, que presidia à comissão de obras, e foi dito em 1952: não era possível, numa cidade pequena, «desalojar duas a três mil pessoas» e instalá-las como devia ser noutro lado.

O censo de 1940 dava à cidade 35 437 habitantes. Pela conta do reitor, saíram da Alta entre 6 e 8 em cada cem.

Documentado[1]Documentado[5]
As casas

Quase metade tinha quatro pisos

  1. 1 piso1
  2. 2 pisos10
  3. 3 pisos46
  4. 4 pisos95
  5. 5 pisos49
  6. 6 pisos1

Os 202 prédios com registo, pelo número de pisos. Os sótãos contam; as caves, não. Da altura em metros não ficou registo: dois prédios vizinhos com os mesmos quatro pisos podiam diferir um andar inteiro.

Documentado[1]
As lojas

97 lojas, oficinas e pensões

  • 30 De comer e beber10 mercearias7 tabernas7 hortaliça e fruta3 padarias2 leitarias1 talho
  • 23 Oficinas5 alfaiatarias4 encadernadores3 sapatarias3 marcenarias2 modistas2 latoarias1 tipografia1 serralharia1 pintura1 relojoaria
  • 19 Outras lojas6 barbearias3 farmácias3 papelarias e tabacarias3 carvoarias2 livrarias1 engraxador1 agência funerária
  • 25 Pensões, armazéns e cafés11 pensões8 armazéns3 cafés e bilhares1 escritório2 por especificar

Os estabelecimentos expropriados em 1942 e 1943, espalhados pelo rés-do-chão das casas. Em 1944, um jornal da cidade contava vinte e três ruas e travessas prestes a desaparecer.

Documentado[1]
O REALOJAMENTO

Para onde foram

Os bairros que a Câmara e o Estado levantaram entre 1945 e 1963, em grande medida para quem saiu da Alta. Todos para lá do que então era a cidade.

0,5 km1,0 km1,5 kma AltaCelas1,8 kmFonte do Castanheiro1,1 kmMarechal Carmona1,3 kmCumeada1,6 kmConchada1,7 kmN
Em linha recta, a partir do meio do que foi demolidoMedido[7]
  1. 1

    Celas

    1945 – 1947 · 100 casas · 1,8 km

    Os primeiros a chegar foram 135 pessoas, de 39 famílias, do Largo do Castelo, do Largo da Feira e da Rua Larga.

  2. 2

    Fonte do Castanheiro

    1946 – 1950 · 100 famílias · 1,1 km

    Recebeu, em 1950, cem famílias desalojadas da Alta: 62 casas de um andar e 38 de dois.

  3. 3

    Marechal Carmona hoje Norton de Matos

    1947 → · 436 casas em 1950 · 1,3 km

    O maior bairro de realojamento da cidade. Em 1951 viviam lá perto de quinhentas famílias.

  4. 4

    Cumeada

    1945 – 1951 · 112 casas · 1,6 km

    Na Quinta de S. Jerónimo.

  5. 5

    Conchada hoje Bairro da Misericórdia

    1948 – 1952 · 20 casas · 1,7 km

    Na Quinta da Misericórdia.

  6. 6

    Alto de Santa Clara

    1949 – 1953 · 80 casas

    Na Quinta da Esperança, do outro lado do rio.

  7. 7

    Lomba da Arregaça

    1958 – 1963 · 72 casas em 3 blocos

    Trinta eram para famílias que ainda viviam na Alta, quinze delas na Rua dos Militares.

  8. Documentado[1]

«Um bairro-museu»

O urbanista Étienne de Groër, que estudava então o plano da cidade, achou as ruas da Alta «quase sempre pitorescas, agradáveis e mesmo higiénicas» e propôs conservar o bairro «preciosamente para os tempos futuros». Em 1953, um vice-reitor saudava «o camartelo que reduziu a poeira aquelas pocilgas».

Documentado[1]

A janela que parou a obra

Em Setembro de 1943, de um quarteirão inteiro entre a Rua das Parreiras e a da Trindade restava uma casa. Um jornal chamou-lhe pardieiro; outro explicou o embargo: tinha uma janela manuelina, que se resolveu levar para o Museu Machado de Castro.

Documentado[1]

O santo que foi com eles

No meio do Bairro de Celas, numa praça redonda, está uma estátua de S. João Evangelista. Veio dos escombros do Colégio dos Lóios. Ao que parece, foram os próprios realojados, e não o Estado, que a resgataram ao empreiteiro.

Documentado[1]

Quatro mil em seis dias

Em Fevereiro de 1966 abriu, na Portagem, uma exposição de fotografias da Alta desaparecida, com os pregões das vendedeiras e o toque da cabra em altifalantes. Seis dias depois, um jornal contava mais de quatro mil visitantes. As fotografias saíram mais tarde em livro: A Velha Alta… Desaparecida.

Documentado[1]

O eixo anda-se a pé.Da Porta Férrea ao fundo da Escadaria Monumental são 340 metros a direito.

A planta de 1934, folha a folha, no Arquivo Municipal →
Referências
  1. N. Rosmaninho (2006), O poder da arte: o Estado Novo e a Cidade Universitária de Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra. doi.org/10.14195/978-989-26-0377-3
  2. Arquivo Histórico Municipal de Coimbra, Planta da cidade de Coimbra, 1934 (levantamento por fotografia aérea de 1932, dir. J. Baptista Lopes), 1:1000, quadrículas 10 e 16. arquivodigital.cm-coimbra.pt/Result.aspx?id=483391&type=PCD
  3. Arquivo Histórico Municipal de Coimbra, Planta topographica da cidade de Coimbra, de F. e C. Goullard, 1873–1874, quadrícula 12. arquivodigital.cm-coimbra.pt/Result.aspx?id=483390&type=PCD
  4. Arquivo Histórico Municipal de Coimbra, Planta da cidade de Coimbra, 1960 (voo de 1957), 1:1000, quadrícula 9E. arquivodigital.cm-coimbra.pt/Result.aspx?id=483392&type=PCD
  5. M. Relvão Calmeiro (2021), Urbanismo antes dos planos: Coimbra 1834–1934, Câmara Municipal de Coimbra, p. 169 (a população da cidade nos censos de 1911 a 1940). estudogeral.uc.pt/handle/10316/103675
  6. Direção-Geral do Território, modelos digitais de terreno e de superfície LiDAR 2 m (2024). cdd.dgterritorio.gov.pt
  7. Edifícios, ruas, praças e bairros de hoje: OpenStreetMap, contribuidores (ODbL). www.openstreetmap.org/copyright