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O passado · Coimbra

A Sé Velha por dentro

A catedral românica de Coimbra, em desenho de arquitecto: cortada, desmontada por andares e lida peça a peça. Porque tem ameias, como se segura um berço de pedra a 18 metros do chão, e quanto do que hoje parece do século XII foi feito há pouco mais de cem anos.

  1. 01

    Ameias sobre uma igreja

    A Sé Velha começou a ser construída no século XII — por volta de 1162, segundo a maioria; há quem recue o início vinte anos ou mais — e estava sagrada em 1184, ou já em 1174, conforme se lê a inscrição do altar. Por fora parece um castelo: paredes lisas e grossas, janelas estreitas, ameias a toda a volta, que reforçam o ar de fortaleza.

    Documentado[2]Documentado[1]

  2. 02

    Três naves, cinco tramos

    Cortada à altura de um homem, a Sé é uma cruz. Três naves de 5 tramos, separadas por pilares; um transepto que quase não sai das paredes; uma cabeceira de três absides, com a capela-mor ao meio, mais funda. Por dentro, da parede poente ao fundo da capela-mor, são 40,3 m, e a igreja tem 17,5 m de largo.

    Medido[1]Medido[6]Documentado[1]

  3. 03

    O berço e as tribunas

    A nave do meio é coberta por um berço de pedra, com 6,4 m de vão e o fecho a 18 m do chão. Um berço empurra as paredes para fora, e os arcobotantes que o gótico usaria para o segurar ainda não existiam. Aqui seguram-no as tribunas, galerias abobadadas por cima das naves laterais que encostam ao berço de um lado e às paredes de fora do outro, e a grossura dessas paredes: 1,7 m.

    Documentado[1]Medido[1]Medido[7]Esquema

  4. 04

    O triângulo do restaurador

    António Augusto Gonçalves, que dirigiu o restauro a partir de 1893, escreveu que o traçado da Sé sai «em exactidão rigorosa» de um triângulo equilátero. Não diz onde o viu. Ponha-se um no corte, com a largura de fora da igreja por base — 20,84 m: o vértice fica a 18,05 m do chão. O fecho do berço da nave está a 17,99 m.

    Documentado[3]Medido[1]

  5. 05

    Por andares

    Desmontada em altura, de baixo para cima: o chão e os pilares, até aos capitéis a 5,3 m; as arcadas e as abóbadas das naves laterais; as tribunas, com o chão a 8,9 m; os berços e o terraço que os cobre; por fim a torre-lanterna, sobre o cruzeiro.

    Medido[1]

  6. 06

    A lanterna e a cúpula

    Sobre o cruzeiro sobe uma torre-lanterna, que deixa entrar luz no meio da igreja. A data é das mais discutidas: uns acham-na do fim da obra românica, outros da primeira metade do século XIII, já gótica — e a parte de cima não segue o desenho da de baixo. A cúpula que a remata é do século XVIII; a grinalda com que D. Jorge de Almeida coroara a torre saiu em 1932.

    Hipótese[2]Documentado[1]

  7. 07

    A Porta Especiosa

    No flanco norte, a Porta Especiosa: três registos que estreitam para cima, encomenda do bispo D. Jorge de Almeida por volta de 1530. O nome vem das procissões que entravam por ela, em que se rezava o «Speciosa est Maria». Por trás está a porta românica, inteira, descoberta em 1893. João de Ruão trabalhou nela; o desenho pode ser de Nicolau Chanterene. Os cinco degraus são de 1933.

    Documentado[4]Hipótese[4]

  8. 08

    O que o restauro tirou

    O restauro quis devolver à Sé o «effeito primitivo», e para isso tirou o que viera depois. Em 1893 saiu a talha que forrava a capela-mor; saíram também os azulejos mudéjares de 1503, que tinham engrossado as colunas. Em 1894 foi demolido o coro alto que, desde o século XV, ocupava os dois primeiros tramos da nave à altura das tribunas. Entre 1912 e 1918 caiu a sacristia que D. Afonso Castelo Branco erguera atrás da cabeceira; em 1933, o campanário que desde 1839 rematava a fachada.

    Documentado[3]Documentado[1]Hipótese[5]Esquema

  9. 09

    O que o restauro inventou

    Muito do que hoje parece do século XII é de 1893 a 1934. Gonçalves trocou as janelas grandes que ladeavam o portal poente por frestas copiadas das catedrais de Ávila e de Zamora, refez os fustes do portal e pôs capitéis lisos onde faltavam. A escada do portal é de 1934, e foi polémica: António de Vasconcelos chamou-lhe «macabra».

    Documentado[3]Documentado[1]

  10. →

    Agora é consigo

    Rode a Sé com o rato ou o dedo. Corte-a onde quiser, desmonte-a por andares, ou tire as peças que vieram depois da obra românica.

Referências
  1. M. L. Craveiro (2011), A Sé Velha de Coimbra, Direção Regional de Cultura do Centro — com o levantamento arquitectónico da DRCC: planta, alçados norte e poente, cortes longitudinal e transversal. estudogeral.uc.pt/handle/10316/44607
  2. M. L. C. Pontes (2009), A Sé Velha de Coimbra: uma proposta de interpretação museológica, dissertação de mestrado, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. estudogeral.uc.pt/handle/10316/13260
  3. L. M. C. Rosas (2007), “O restauro da Sé Velha de Coimbra. António Augusto Gonçalves entre o rigor da História e o rigor do Desenho”, Faculdade de Letras da Universidade do Porto. repositorio-aberto.up.pt/handle/10216/14148
  4. M. L. Craveiro (2005), “A Porta Especiosa e as obras de restauro”, em Sé Velha de Coimbra. Culto e Cultura, pp. 147–180. estudogeral.uc.pt/handle/10316/44654
  5. C. Teles e Marques (2014), A sacristia e a encomenda episcopal portuguesa no período da reforma católica. O caso da Sé de Coimbra e o patrocínio do bispo D. Afonso de Castelo Branco, tese de doutoramento, Universidade Nova de Lisboa. hdl.handle.net/10362/11394
  6. OpenStreetMap, contorno da Sé Velha (way 41222810). www.openstreetmap.org/way/41222810
  7. Direção-Geral do Território, modelos digitais de terreno e de superfície LiDAR 2 m (2024). cdd.dgterritorio.gov.pt